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Em 34 anos, só 38 mulheres venceram uma eleição para o Senado Federal brasileiro

Por Alana Fagundes Valério*

Um número que deveria incomodar quem se interessa por representação política no Brasil: em 34 anos de eleições diretas para o Senado Federal, apenas 38 mulheres venceram uma disputa e assumiram o cargo como titulares.

As demais, que já passaram por uma cadeira na Casa, chegaram lá pela via da suplência. Ou seja, substituindo um titular homem, sem terem sido eleitas diretamente para o posto. Essa distinção não é um detalhe técnico. Ela muda a forma como podemos ler a presença feminina no Senado Federal brasileiro e a capacidade de articulação das mulheres na elite política.

Uma porta lateral chamada suplência

Entre 1979 e 1984, antes mesmo de qualquer mulher vencer uma eleição para o Senado, algumas já ocupavam a cadeira como suplentes, assumindo o mandato de senadores titulares. O acesso feminino ao Senado não começou pela porta da frente, e a suplência foi por muito tempo o único caminho disponível.

Rastrear separadamente as senadoras eleitas permite uma pergunta mais honesta: quando mulheres de fato disputam e vencem, quem são elas, e o que sua presença muda?

Quem são as 38?

Organizadas em três gerações (1991-2002, 2003-2010 e 2011-2022) o quadro é de avanço numérico com estagnação estrutural. O número de eleitas cresce a cada geração (7, depois 10, depois 21), mas o perfil muda pouco: 84,2% delas são brancas, 94% têm ensino superior completo, e a maior parte chegou ao cargo já carregando capital político acumulado, seja por trajetória partidária consolidada ou por herança de sobrenome e rede familiar. Mulheres negras, periféricas e fora dos circuitos tradicionais de poder seguem sendo exceção, mesmo dentro do já pequeno grupo de mulheres que rompe a barreira eleitoral imposta, especialmente, pelos partidos políticos.

E há outro dado que interessa diretamente a quem vai votar em algumas semanas. Apenas 13% das senadoras conseguiram se reeleger, e nenhuma da geração mais recente (2011-2022) repetiu o mandato até o momento. Entre as senadoras em exercício até 2026, quatro titulares tentam a reeleição. São elas: Eliziane Gama (PSD-MA), Leila Barros (PDT-DF), Soraya Thronicke (PSB-MS) e Zenaide Maia (PSD-RN), além da Senadora Margareth Buzetti (PP-MT), suplente em exercício que tentará a eleição como titular de chapa pela primeira vez.

A cadeira de senadora, quando ocupada por uma mulher, tende a ser um mandato só. O que também diz algo sobre as condições de permanência e apoio dos partidos políticos oferecidas a elas depois da primeira eleição. As eleições de 2026 já registraram um avanço significativo, já que todos os estados da federação contam com pelo menos uma mulher concorrendo ao cargo de Senadora, totalizando 69 registros, segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em setembro de 2026.

Estar lá é diferente de mudar a pauta

Em pesquisa defendida na EACH/USP, em 2025, foi possível levantar e analisar os projetos de lei ordinária apresentados por essas senadoras entre 1991 e 2025. Foram 1.935 propostas ao todo, das quais apenas 9,8% tratavam de temas de gênero atrelados a pautas como violência, saúde reprodutiva, discriminação no trabalho, entre outros.

A proporção cresceu a cada geração observada (de 5,8% na 1ª geração para 11,9% na 3ª), o que é um dado positivo. Entretanto, ainda está longe de sugerir que a presença de mulheres no Senado se traduz, na mesma medida, em uma agenda legislativa voltada à melhores condições de vida para as brasileiras.

O que isso tem a ver com o voto

Em 2026, as mulheres ocupam 18% das cadeiras do Senado, segundo os dados disponibilizados no Portal de Dados Abertos do Senado Federal. O que significa menos de um terço da Casa, 38 anos depois da redemocratização. Esse número por si só já é um indício ruim da sub-representação das mulheres em espaços públicos de deliberação.

Talvez o dado mais importante para outubro de 2026 não seja a quantidade de mulheres candidatas, e sim que critérios podem ser usados para escolher entre elas. E entre todos os demais candidatos, consequentemente. Marcadores sociais como gênero, raça/etnia, classe, sexualidade, por exemplo, quando intercruzados, podem indicar o nível de comprometimento com agendas políticas mais próximas da coletividade.

Representação importa e é parte legítima de uma democracia mais justa. Mas os números levantados sugerem que ela não é suficiente sozinha. Vale perguntar, a cada candidatura, seja candidata mulher ou candidato homem: quais propostas concretas essa pessoa está disposta a defender? Há compromisso real com pautas historicamente negligenciadas? Ou a diversidade é apenas uma imagem de campanha?

Se esses dados podem ensinar alguma coisa a menos de duas semanas das urnas, é que o número de mulheres eleitas é uma métrica necessária, mas insuficiente, para medir se a construção da democracia brasileira está, de fato, incluindo quem historicamente ficou de fora dela.

*Alana Fagundes Valério é doutora em Mudança Social e Participação Política pela USP, com a tese intitulada “A construção da representação política feminina no Senado Federal brasileiro”, disponível em: https://teses.usp.br/teses/disponiveis/100/100134/tde-27082025-140833/pt-br.html.

Atua como professora universitária, advogada e pesquisadora nas áreas de gênero, política e direitos humanos.