Tem sido crescente a preocupação com a forma como a sociedade incorpora sistemas de inteligência artificial generativa ao cotidiano. Há uma transformação silenciosa na infraestrutura que organiza e produz conhecimento, influencia decisões e participa, cada vez mais, da formação de visões de mundo. Esses sistemas cumprem tarefas com grande eficiência, ajudam a esclarecer assuntos e podem emular conversas com profissionais de diferentes áreas – como psicólogos, sociólogos, juristas ou médicos. Vão muito além disso, gerando vídeos, música e conteúdos midiáticos cuja distinção em relação às criações autenticamente humanas tem se tornado progressivamente mais difícil. Aos poucos, esses sistemas passam a ocupar espaços antes desempenhados por humanos, remodelando diferentes aspectos da vida social.

Em 2025, os investimentos em inteligência artificial por parte das Big Techs foram estimados entre US$ 300 e 400 bilhões (Subin, 2025). Para 2026, projeções indicam cerca de US$ 630 bilhões apenas entre as maiores empresas – Microsoft (principal investidora da OpenAI), Meta, Google e Amazon. Quando considerados também grandes provedores de infraestrutura, como Oracle e CoreWeave, na ordem de US$ 273 bilhões, esse montante alcança valores ainda mais elevados (Kwok, 2026). No agregado, diferentes estimativas sugerem que os investimentos acumulados no biênio 2025-2026 se aproximam ou superam a marca de US$ 1 trilhão.
Esse ecossistema também possui uma base material significativa: chips, data centers, cabos submarinos, satélites e cadeias globais de hardware, cuja sustentação industrial depende de commodities cada vez mais disputadas, como silício, estanho, prata e elementos de terras raras. Nesse sentido, a tecnopolítica da IA se projeta diretamente sobre a geopolítica, afetando o Sul Global de diferentes formas – não apenas no plano informacional.
Trata-se de um dos maiores ciclos de investimento tecnológico concentrado em um curto período, comparável – em escala e velocidade – a momentos históricos de reorganização econômica, como o Plano Marshall. Nesse contexto, observa-se uma forte tendência à oligopolização: nas condições atuais, competir com os ecossistemas das Big Techs exige um volume de capital e um nível de infraestrutura que torna a entrada de novos atores extremamente difícil.
Para além da concentração econômica, esses sistemas são marcados por um alto grau de opacidade. Essa opacidade é tripla: técnica, devido à complexidade dos modelos; corporativa, em função do sigilo industrial; e epistêmica, pela dificuldade de rastrear como determinadas saídas são produzidas. Os dados utilizados, as arquiteturas dos modelos, os processos de treinamento e os ajustes finos (fine-tuning) são protegidos por “segredo de negócio”. Como resultado, torna-se difícil compreender como as respostas são geradas, identificar vieses – como racismo ou etnocentrismos – ou avaliar distorções sistemáticas.
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